• Vivian Laube

Quantas Vivians cabem dentro de mim?

Em tempos de pandemia, sem poder exercer minha principal atividade que é compartilhar conhecimentos de comunicação não violenta, presencialmente em cursos e palestras, eu tenho tido tempo para estudar mais, escrever mais, arrumar gavetas, armários, ver séries, fazer algumas experiências gastronômicas, entre outras coisas. Confesso que esta área da gastronomia não me atrai muito, e os resultados não são muito felizes.


Olhando algumas fotos antigas, deparei-me com esta, na qual estou com minha mãe, numa festa que acontecia anualmente na cidade de Taquara-RS, no Clube Comercial, da qual participavam somente mulheres, e se chamava: “Baile da Fofoca”. Numa cidade pequena, onde todos se conheciam pelo menos de vista, era um momento muito divertido e esperado todo ano, e hora de caprichar em construir personagens. Neste ano, mais ou menos 1980, minha mãe decidiu ir vestida de homem, num estilo cafetão, e eu num estilo “mulher da vida”, amante, não sei bem. Felizmente o baú da minha avó era repleto de modelitos e acessórios maravilhosos!


Recentemente postei uma foto minha cantando numa Opereta, num outro artigo. E uma amiga comentou: mulher, mas até isso tu fazes?


Observando esta foto e o comentário da minha amiga, percebi que eu tenho muitas Vivians dentro de mim. Assim como minha mãe tinha várias Lecis dentro dela. Era uma pessoa centrada, super profissional, organizada, por vezes dura em suas palavras, exigente. Mas tinha uma veia artística linda, foi professora de gaita, bordava, cantava, e até se vestia de homem para divertir-se num baile.


Quantas Vivians cabem dentro de mim? Sou realmente muitas pessoas em uma só. Me vejo espelhada em várias coisas da minha mãe, tanto no quesito organização quanto artístico. Gosto demais de um palco! Quando eu participava do Coro Júlio Kunz, algumas pessoas diziam que preferiam os ensaios às apresentações. Ao contrário, eu não tinha muita paciência para os ensaios, mas amava me apresentar!

Já cantei, já dancei. E agora, faço palestras em palcos por vezes bem grandes. Gosto de ver o público, gosto dos aplausos, gosto do que estou fazendo, gosto dos cumprimentos ao final. Talvez muitos não saibam disso.


Nós achamos que conhecemos as pessoas. Por vezes, colocamos rótulos nelas, determinando quem nós achamos que são. Sem ter ideia alguma de quem são de verdade.

Uma pessoa que me vê num momento de raiva ou indignação, não tem ideia da pessoa que eu sou quando canto.


Os momentos de nossa vida não nos definem. Eles são por vezes expressões trágicas de necessidades nossas, não atendidas, como bem nos ensina o mestre em comunicação não violenta, Marshall Rosenberg.


Se você quer conhecer alguém, coma um saco de sal com ele, diz o ditado.


Às vezes somos um no trabalho, porque sofremos pressões incríveis ou porque não sabemos lidar com algumas coisas e reagimos de modo mais forte, descontrolado. Mas quando estamos num ambiente de confiança, no qual nos sentimos tranquilos, somos divertidos e leves. Quantas pessoas vocês conhecem que se transformam, dependendo do ambiente, da situação, do momento?


Por isso, julgar alguém, colocar um rótulo, cria uma barreira muito grande que nos impede de ter conversas saudáveis e criar conexão com elas. Rótulos criam muros.


Antes de conversar, preste atenção em como você vai para esta conversa, que histórias você já está contando para si mesmo sobre esta pessoa, sobre o que ela fez e porque ela fez. Vá mais aberto com a intenção de ser curioso e entender de onde vem o comportamento dela, qual necessidade dela foi abalada, levando-a a agir ou reagir de determinado modo.


Se você tem a intenção de criar conexão, acione fortemente a empatia e a compaixão. Vá livre de rótulos. Vá com mais perguntas que respostas. Faça perguntas que contribuam para chegar nas necessidades do outro e perceba as suas. Fale sobre, o que de melhor poderia acontecer para que ambos ficassem bem.


Tudo isso irá acontecer naturalmente se você aprender a se escutar, a ter autoempatia e autocompaixão. Se você tiver presente que existem muitos eus dentro do seu ser. Que estes eus podem se apresentar de modo divertido, leve, tranquilo, mas também com medo, raiva, irritação, vergonha, culpa.


Vá para uma conversa como um ser humano e reconheça o humano no outro e saiba que, mesmo que vocês pensem que não tem nada em comum, se comerem um saco de sal juntos vão encontrar vários valores com os quais compartilham, e várias coisas que poderiam fazer juntos.


Não deixe que um momento te defina, nem defina o outro. Sem rótulos, podemos ser quem somos de verdade.


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