• Vivian Laube

Precisamos aprender a dizer e a ouvir a verdade



Eu tenho duas tias.

Uma com 92 anos, já com problemas de memória. Quando a visito e ela me reconhece, diz: como tu és linda! Quando não me reconhece ela também me diz: como tu és linda! É bom demais visitar esta tia! Ela é querida, só diz coisas que eu gosto de escutar, não incomoda ninguém, é uma pessoa leve.


Tenho outra tia querida, de 76 anos que está super ativa ainda. Normalmente nos encontramos em festas de família, que neste ano estão raras. Mas falamos bastante nos grupos de whatsApp – temos dois em comum.

Num dia destes ela escreveu mais ou menos assim no grupo da família, após eu postar uma divulgação de um curso meu: Vivian, este grupo não é para tu fazeres propaganda, faça isso individualmente. Qual destas duas tias vocês acham que eu tenho mais facilidade de conviver? Obviamente a que diz que me acha linda! Porque ela me deixa na zona de conforto, aquele lugar morninho, agradável, prazeroso.

Mas qual delas me desafia a ser uma pessoa melhor? A que diz a verdade estalada na minha cara, de um modo bem desconfortável. Mas me faz pensar, será que estou incomodando este grupo e ninguém me disse?

Dizer e ouvir a verdade nem sempre é confortável. Mas é necessário para termos relações mais saudáveis. Entretanto, podemos aprender como dizer esta verdade.


A minha verdade não precisa ser dita como uma acusação, desabafo, queixa, culpando o outro pelo que sinto. Tenho sempre a possibilidade de escolher como dizer a minha verdade e onde.


Minha tia poderia ter escrito direto e não no grupo: olha Vivian, eu acho teu trabalho super bacana, mas me incomoda quando tu postas tantas divulgações dos teus cursos no grupo da família. Eu penso que o grupo tenha outra função. Quem sabe tu envias individualmente? Possivelmente esta fala dela teria sido recebida por mim como um presente.


Mas a outra também foi, porque a prática da comunicação não violenta me ensinou muito sobre empatia e escuta. E sei que nesta fala dela tem por trás uma necessidade dita de maneira torta. Posso focar no modo como ela trouxe isso à tona. Ou posso prestar atenção no que ela quer me dizer e até checar com ela se entendi bem. Entretanto, ao falar no grupo, ela expos a mim e a ela, e deixou todo grupo tenso, preocupado. O que a Vivian vai fazer agora!! Vai dar briga!!! Ela vai sair do grupo!

Só que não. Eu agradeci por ela ter me dito a verdade, que possivelmente outros não tiveram a coragem de dizer. E tudo isso me fez repensar o modo como vinha me comportando nos grupos, e passei a ter mais cuidado para não postar algumas coisas. Ou seja, contribuiu para que eu olhasse para mim, para meu trabalho. Me fez refletir, amadurecer e melhorar.


Dizer a verdade é necessário, mas é uma arte.


Caso contrário, cometemos sincericídios (#prontofalei), destes que nos afastam das pessoas que amamos, que separam famílias, amigos, colegas de trabalho.

Quando não dizemos a verdade, nós usamos outros modos para que a pessoa entenda o óbvio. Para não dizer que não concordo, eu boicoto. Para não dizer que não gosto, eu finjo e depois falo mal. Para não dizer que não quero, eu faço e depois me queixo, ou estrago o programa.


E assim seguimos na crença de que é melhor não dizer a verdade porque tenho medo de como a pessoa irá reagir e não quero criar confusão. Ao invés de aprendermos como dizer a verdade.


E tem sim um caminho para isso, que a comunicação não violenta nos convida: falar sobre a situação, o fato. Dizer como nos sentimos, na primeira pessoa, sem acusar o outro. Apresentar nossas necessidades, valores o que nos importa e não está sendo cuidado quando tal situação acontece. E somado a isso tudo, podemos acrescentar um pedido, que não seja uma exigência, mas sim, um convite para que o outro possa compreender o que me faria mais feliz.


Vamos Aprender a Conversar?


Vivian Laube Mentora e Facilitadora de Comunicação Não Violenta Método – Vamos Aprender a Conversar @vivianlaubecnv 51 981260490

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