• Vivian Laube

Porque explicar o mal dito é mais difícil do que falar corretamente.

Durante entrevista no programa Roda Viva, da TV Cultura, Cristina Junqueira, fundadora do Nubank disse que é difícil encontrar candidatos negros adequados a vagas de alta liderança em sua empresa ... a empresa investe em programas de formação gratuitos, mas não pode “nivelar por baixo”.*


A polêmica gerada como consequência da fala foi proporcional a maneira como ela escolheu se expressar num programa deste nível, falando sobre um tema tão importante quanto o racismo.


Esta fala possivelmente mostra o que a Cristina pensa sobre como é difícil para uma empresa, contratar profissionais que são considerados minorias, de modo que haja equilíbrio entre homens e mulheres, negros e brancos, e por aí vai.


Sabemos que esta é sim uma realidade, mas a escolha das palavras não foi adequada, tanto é que ela teve que voltar a público para explicar melhor o que queria dizer. Mas isso depois de ser massacrada por comentários por vezes mais agressivos e violentos do que a intenção dela ao abordar, de modo equivocado, este tema.


Lendo mais sobre o assunto, em várias fontes, procurei entender sua visão e o que de fato havia por traz desta fala. Percebi que ela também se referiu a questão das mulheres, dizendo: “infelizmente, a realidade é que, em condições iguais, o mundo vai favorecer um homem. O que eu falo é: não esteja em condições iguais, seja melhor. Não é justo, mas não tenho tempo para esperar o mundo se tornar igual para minha carreira avançar”. Mesmo dura, esta fala me parece extremamente coerente. Especialmente vinda de uma mulher de sucesso, que chegou a um posto ainda muito masculino no nosso universo corporativo.


Onde quero chegar? O fato de a Cristina ter se expressado de maneira equivocada, não significa que ela seja má pessoa, que tudo o que ela fez até hoje seja inadequado, que ela seja racista, que o Nubank não é um bom banco, que as pessoas negras devem encerrar suas contas - li vários comentários nas postagens falando sobre isso. Significa tão somente que, nesta situação, ela fez uma má escolha das palavras na hora de se expressar.


Estas reflexões me levam a observar o quanto precisamos aprender a falar com autenticidade, sem cometer sincericídio. Marshall Rosenberg contribui muito para que isso aconteça ao nos presentear com a comunicação não violenta, tema pelo qual sou apaixonada.


A CNV nos convida a dois caminhos: oferecer empatia à fundadora do Nubank e oferecer empatia para todas as pessoas que se sentem incomodadas pela frase dela, sem precisar dar um veredito de quem esteja certo.


Do meu ponto de vista, qual foi o grande erro da Cristina, neste caso? Ela apresentou uma fala que trazia no seu contexto um julgamento, ou seja, uma interpretação sua sobre uma vivência no dia a dia, no cargo que ocupa.


Como ela poderia ter se expressado? Simplesmente observando o fato, ou seja, trazendo dados, informações, histórias que ilustrassem a situação. E a partir disso, concluir algo como: por isso é tão difícil lidar com o problema. Possivelmente a polêmica também existiria, mas num âmbito que não mobilizaria os sentimentos das pessoas com tanta potência.


Por que muitas pessoas se manifestaram apoiando a fala da Cristina? Possivelmente porque vivem uma situação semelhante à dela e conseguem entender qual o seu lugar de fala. Por que tantas outras se manifestaram agressivamente? Com certeza porque se sentiram afetadas. Uma coisa é certa: buscar o culpado não irá resolver a situação e discutir quem tem razão, também não.


Entender que o que move os sentimentos decorre de necessidades não atendidas (ou atendidas) e que o fato em si só os traz à tona, nos ajuda a olhar situações como esta, de outro ângulo. Por isso, não é uma questão de certo ou errado, de culpado ou inocente, mas de falar sobre as necessidades de todos e estratégias para encontrar soluções. Ao pedir desculpas Cristina diz “acho que não me expressei corretamente”. Será que ao dizer isso as pessoas irão entender que a intenção dela não foi ruim, somente a escolha da fala? Percebam o quanto é complexo quando expressamos nossa verdade de maneira equivocada! Os prejuízos são enormes e levamos muito tempo para resgatar a imagem.


Dizer o que pensamos, a nossa verdade, é muito importante para termos relações mais honestas e saudáveis. Mas precisamos aprender a fazer isso de modo a não desrespeitar o outro e a construir uma ponte, não um muro, onde as conversas difíceis possam acontecer num ambiente de conexão e foco no atendimento das necessidades. Não precisamos concordar com o outro, mas temos que buscar entender de onde vem a fala e a atitude dele.


Estas habilidades podem ser aprendidas e cabe as empresas prepararem suas lideranças não somente para hard skills, mas especialmente para lidar com pessoas, para entender de fato o que é empatia e praticá-la. A oferecerem recursos como o conhecimento e a prática da comunicação não violenta no dia a dia, de modo que isso se integre a cultura organizacional e se incorpore no modo de pensar e agir de todos.


Precisamos aprender a conversar!

imagem de divulgação do programa Roda Viva


Vivian Laube Mentora e Facilitadora de Comunicação Não Violenta Método – Vamos Aprender a Conversar @vivianlaubecnv 51 981260490


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