• Vivian Laube

O perdão é uma forma de libertação também para quem perdoa.


No dia 16 de dezembro, o programa Roda Viva entrevistou os três ícones brasileiros da filosofia: Cortella, Karnal e Pondé, que escreveram o livro Felicidade, modos se usar.


Neste programa um dos temas foi o perdão, abordado pela entrevistadora Tati Bernardi, escritora e articulista. Para pedir dicas de como perdoar, ela introduziu o tema expondo uma situação familiar, na qual o pai teria votado num candidato contrário ao seu e estava achando ótimo o governo dele, e ela teria que perdoá-lo em virtude da chegada do Natal. A partir deste comentário, os três filósofos se manifestaram.


Cortella se referiu a liberdade de escolha e aos múltiplos modos de ser. Falou também que uma pessoa estar mais consciente de uma situação não significa que ela esteja certa. Comentou que talvez o pai dela não queira ser perdoado, pois não se sente culpado de nada. Ou seja, para haver perdão, tem que haver culpa. A pessoa tem que entender que fez algo errado. E não está errado ter escolhas.


Gosto de pensar que nossas escolhas são feitas a partir das nossas necessidades, do modo como vemos o mundo, por causa dos nossos valores, nossa experiência de vida, nossa educação, nossas vivências. Não cabe a ninguém criticar ou julgar uma escolha, muito menos perdoá-la, a não ser que tenha tido consequências trágicas e que eu peça perdão.


Karnal disse “o exercício do perdão é também um exercício de poder, se eu preciso perdoar pertence a mim o poder e o outro está numa posição inferior”. Ele brincou dizendo que talvez o pai da entrevistada quisesse perdoá-la pela escolha política que ela fez, porque na experiência dele, o ano está ótimo e ele acertou na sua opção. Mas Karnal trouxe outra reflexão: por que este tema complicado tem que ser falado no Natal? E se esta for a escolha da família isso não é culpa da política, mas do funcionamento familiar.


E isso me fez refletir sobre como nós, na arrogância de sempre estarmos certos e termos razão, buscamos confrontar os outros, principalmente os mais próximos, que não pensam como nós, dificultando nossas relações e deixando de lado o que mais importa, o afeto, o carinho, o amor.


Por último, Pondé trouxe a sua visão de política, que se presta muito bem para todas as nossas relações: “entendo política como a arte de você conviver com quem você não concorda, com quem você não gosta. A ideia de conviver somente com quem eu concordo é mais platônica, que é a ideia de fazer uma política para eliminar toda a política, diferente de Aristótoles que é mais tradicional e entende que política é a arte de lidar com conflitos que nunca acabam”.

Ele disse ainda que “a justiça dá à pessoa o que ela merece, o perdão dá aquilo que ela não merece”. Por isso, o perdão é uma forma de libertação inclusive para quem perdoa, ele complementa o laço social”.


A comunicação não violenta nos ajuda a sair do lugar de poder, de que eu estou certo e o outro está errado, que eu sou bom e o outro é mau, que eu sou inocente e o outro é culpado. Ela nos convida, assim como a justiça restaurativa, a olhar as pessoas a partir de suas necessidades, e o que as move a pensar ou agir de determinado modo.


E entender que as escolhas são pessoais, as pessoas não pensam do mesmo modo, e farão escolhas diferentes. E tá tudo bem! Mesmo assim podemos conviver, pois temos a capacidade de compreender o humano do outro, sentir empatia e ter compaixão.


O convite para este final de ano é:

não estrague o seu Natal com a sua arrogância e certeza de estar certo e ter razão.

Simplesmente escute mais, seja curioso sobre o outro, sobre suas escolhas, e perceba que ele é um ser humano como você, que tem sentimentos a partir de necessidades.

E não faz escolhas para prejudicar ou incomodar você.

Apenas faz o que é possível para ele.


Vivian Laube

Diretora de LF Comunicação Integrada

Professora, palestrante e facilitadora de comunicação não violenta.

(51) 981260390

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