• Vivian Laube

Como a empatia me ajuda a Ser Mãe sem padecer no paraíso

Certa vez eu estava na casa dos meus pais, em Tramandaí-RS, fazendo tricô, e minha filha, que tinha alguns meses de vida, estava choramingando no bebê conforto. Então eu reclamei que não podia mais fazer o que eu gostava, porque tinha que dar atenção a ela todo tempo. Minha mãe disse algo como: mas tu sabias que quando tivesses um filho tudo seria diferente. E eu respondi: mas não sabia o que isso significava de fato.


Conto esta história porque naquele momento eu percebi que a gente tem uma ideia muito fantasiosa deste papel de ser mãe. É como se, ao ter um filho, a gente se transformasse num ser cujo único foco e prazer na vida girasse em torno dele, tamanho privilégio que é conceber uma criança. E a partir disso, passamos a ser vistas como seres capazes de um amor sublime e, por si só, suficiente para a nossa felicidade. Então, meu tricô obviamente deveria ser posto de lado, mesmo sendo algo muito prazeroso para mim.


Estamos falando de 25 anos atrás, de um tempo no qual a participação efetiva do pai nos cuidados com o filho, ainda era vista como secundária, e parecia que o bem estar desta criança dependia de a mãe estar sempre presente, atenta, amamentando, cuidando, etc. Somando-se a isso, a minha autoexigência e busca pela perfeição, em tudo o que faço.


Mas eu gostava de ser mãe por um tempo, e ser eu no restante: trabalhar, passear, ler, fazer tricô, visitar amigas, namorar, entre outras coisas. Percebam que eu separo o ser mãe do ser eu, pois de fato, levei muito tempo para entender que é possível vivermos diferentes papeis nas suas complexidades, e seguirmos sendo uma só pessoa.


Por muitos anos a sociedade contemporânea vem cobrando da mulher um lugar de perfeição, de quem dá conta de tudo e é feliz. Mas felizmente, isso já está caindo por terra. Entretanto, o exercício da maternagem propriamente dita, e não somente da maternidade, exige um esforço e uma presença mais efetiva junto ao filho. O que, por vezes, significa colocar de lado um projeto de carreira, por exemplo, gerando grande frustração.


O ditado “ser mãe é padecer no paraíso”, sempre me deixou incomodada, porque sim, somente quem é mãe sabe o que é sentir este amor maior, que talvez seja o paraíso. Mas este padecer.... não é fácil para ninguém.


Antes de ser mãe, fui madrasta. Engraçado perceber que neste papel ironicamente nos dão a possibilidade de sermos má. Então, ser mãe significa ser boa, e ser madrasta significa ser má. O que as pessoas talvez não saibam é que ser madrasta exige ainda mais de ti, pois se trata de construir uma relação de afeto e respeito, com uma criança que até então não fazia parte da tua vida, e cuja educação e comportamento será fortemente influenciada por quem de direito: os pais. Tenho certeza de que fui boa com minha enteada e má com a minha filha muitas vezes!!! Porque afinal, sou um ser humano e vivo em eterno estado de aprendizado.


Poder expressar estes sentimentos já é bem melhor do que ficar fazendo pose de mãe perfeita. Poder falar de como me sinto neste papel, quais são meus ganhos mas também as perdas, meus medos em relação a educação, meus exageros com os cuidados, meu excesso de atenção, minha cegueira em frente ao óbvio, me ajuda muito a acolher o que de melhor eu posso SER nas duas versões de mim mesma.


A autoempatia é este lugar no qual eu posso ser minha melhor amiga, minha melhor escutadora, e onde eu posso ser quem eu sou de verdade, sem filtro. E eu exercito a autocompaixão quando acolho com amor, minha versão não tão perfeita. E me abraço, me afago, me cuido e me fortaleço, a partir do que tenho de melhor. Não como uma exigência, mas como uma escolha que faço todos os dias.


A empatia me ajuda a olhar para o entorno e perceber quantas pessoas passam pela mesma situação que eu, e precisam também ser acolhidas e escutadas nas suas dúvidas, incertezas, frustrações e alegrias. Ela contribui para que eu aprenda a ter conversas mais assertivas com minha filha, olhando para ela não como uma extensão do meu ser, mas como alguém único, que sobreviverá a minha presença ou ausência, e terá que travar suas próprias batalhas de autoconhecimento, desenvolvimento e cura.


Poder contar com uma rede de apoio nos cuidados com minha filha me ajudou muito a perseguir meus objetivos profissionais e pessoais. Inclusive durante os 8 anos nos quais eventualmente eu viajava à trabalho, ficando até 15 dias fora de casa.


Nestes 25 anos de maternagem, eu percebi que fui melhor mãe quando eu pude viver e aprender com meus erros e acertos, e que o maior legado que posso deixar a ela é o respeitá-la nas suas diferenças, apoiando-a e estimulando-a na busca pela construção e formação do ser humano lindo que ela é, e que eu tenho o privilégio de chamar de filha.




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