• Vivian Laube

É hora de as empresas acordarem para a potência da comunicação não violenta

Atualizado: Mai 4

Quando assumiu o cargo de CEO da Microsoft em 2014, Satya Nadella, então com 46 anos, introduziu a Comunicação Não Violenta já na primeira reunião de executivos, como modo de propor uma mudança nos relacionamentos do primeiro escalão, que vinham de um histórico de hostilidade e confronto, decorrente do modo como seu antecessor conduzia a empresa.


Menos grito e mais escuta, foi o novo formato de gestão introduzido por Nadella, que aos poucos, passou a ser visto como um gestor que além da capacidade e conhecimento técnico, sabia conversar com as pessoas.


Em 2018, Nadella publicou o livro Aperte o F5: a transformação da Microsoft e a busca de um futuro melhor para todos, no qual relata todas as mudanças que aconteceram na empresa sob sua gestão, e também, como a comunicação não violenta contribuiu para a introdução de uma cultura empresarial voltada para as pessoas.


Ele foi considerado o empresário do ano pela Revista Fortune, em 2019, ano no qual a Microsoft foi eleita, pela segunda vez, a empresa de capital aberto mais ética dos EUA.


Este é apenas um exemplo de como as corporações vem voltando seu olhar para a melhoria dos relacionamentos, com todos os seus stakeholders, ajustando o foco, saindo de um lugar de imposição para um lugar de compreensão, escuta e cocriação, de modo que haja real engajamento e satisfação de todos envolvidos.


Pesquisa da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial – Aberje, sobre os Desafios da Covid - 19 para a Comunicação Organizacional, realizada no final de março, com 86 organizações no Brasil, mostra que dentre os processos de comunicação, a comunicação interna foi o mais afetado (83%). E que o principal desafio da organização frente a crise é o de manter os colaboradores engajados e produtivos durante este período (55%), acima até mesmo de manter a saúde financeira da organização.


Ao dizer que “toda violência é a expressão trágica de uma necessidade não atendida”, Marshall Rosenberg, autor do livro Comunicação Não-Violenta - Técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais, nos fez compreender melhor o porquê de nos sentirmos ameaçados, frustrados, com raiva, e como a expressão destes nossos sentimentos gera, por vezes, ainda mais violência do que aquela que imaginamos tenha sido realizada contra nós.


A tragédia está no fato de não conseguirmos conversar de um lugar de escuta, empatia e respeito.


Se focarmos nas necessidades que ambos temos, será mais fácil chegarmos a um lugar de resolução de conflitos, saindo do confronto.


E o que isso tem a ver com nossas empresas? Tudo!


É lá o palco para que cada ser humano exerça um papel, para o qual foi contratado, trazendo consigo uma bagagem cultural, ideologias, pensamentos, experiências, educação, princípios, valores. Entre o líder e o liderado, entre as pessoas que formam uma equipe, tem diferenças por vezes enormes, que devem sim ser levadas em consideração para que possamos criar um ambiente harmônico, de cuidado, valorização e respeito, onde todos possam ser quem são de verdade sem culpa nem medo.


“Percebemos que nosso principal papel é ir além do gerenciamento de canais de comunicação e de fato promover espaços de diálogo dentro da empresa”, afirma Luciane Reis, head de Comunicação Corporativa da Cargill, em entrevista para a publicação Comunicação Empresarial, da Aberje, que em sua última edição de número 105, dedicou mais de 30 páginas ao tema.


Para além do modo de falar, a comunicação não violenta nos ensina um novo olhar para o outro e para as situações. Ela parte da autoempatia, quando eu percebo o que está vivo em mim e o que poderia acontecer para que eu ficasse melhor. Quando aprendo a fazer isso, posso então praticar mais organicamente a empatia, reconhecendo o humano no outro, o que está vivo nele e qual seria o seu pedido para que suas necessidades fossem atendidas.


Esta é uma construção que tem duas vias, e requer escuta ativa, presença e a intenção de construir pontes, não muros.


Introduzir a CNV nas empresas contribui inclusive para que as pessoas se responsabilizem por seus sentimentos, suas escolhas, suas carreiras, seu aprendizado, sua entrega. E que deixem de olhar para a entidade empresa como alguém que irá atender todas as suas necessidades. Ou seja, a relação deixa de ser um pai mandando num filho, punindo-o por seus erros e premiando-o por seus acertos, para ser uma relação de comprometimento de duas partes envolvidas num mesmo propósito, ou pelo menos, num mesmo objetivo.


" Essas pessoas criam um clima organizacional de maior diálogo e lidam melhor com os conflitos e as divergências, tendo em conta que eles são benéficos para o desenvolvimento de um ambiente mais produtivo e de busca de excelência e diversidade", diz Pamela Seligmann, consultora em liderança e instrutora do curso de CNV da Aberje.


Será que é possível?


Não só é possível como necessário. Há um tempo para tudo na vida, já estava escrito em Eclesiastes 3: 1-8. Pois é chegado o tempo no qual as empresas não sobreviverão se não levarem a sério sua responsabilidade social, a sustentabilidade, o respeito à diversidade, o reconhecimento aqueles que todos os dias dedicam horas de suas vidas para entregarem o melhor de si e prol da prosperidade e sucesso do negócio. A inteligência relacional cria um clima de interação, no qual a criatividade e a cooperação fluem naturalmente.


A CNV traz clareza sobre como podemos sistematicamente estarmos atentos às nossas conversas, cuidando de nós e do outro, nos aproximando c


ada vez mais deste tão sonhado paraíso no qual o colaborador sinta-se verdadeiramente aceito, pertencente, importante, e consequentemente, engajado e feliz.


Vivian Laube

Diretora de LF Comunicação Integrada


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